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Plano Cavallo: A tentativa de dolarização argentina que não deu certo.

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plano Cavallo, Argentina
Javier Milei, novo presidente da Argentina, ergue uma nota de dólar com seu próprio rosto durante a campanha eleitoral — Foto: Natacha Pisarenko/AP Javier Milei faz 1º discurso como presidente da Argentina Proposta de Milei previa o fim do peso argentino, mas assunto foi deixado de lado desde a sua posse no domingo — Foto: Natacha Pisarenko/AP Um apoiador do novo presidente da Argentina segura uma nota de 100 dólares com uma imagem de Javier Milei durante a campanha — Foto: Agustin Marcarian / Reuters - Todos os direitos: G1

Javier Milei propõe a dolarização para evitar o empobrecimento na Argentina. Especialistas alertam para desafios com inflação e desemprego.

O novo presidente da Argentina, Javier Milei, discursou durante sua posse no último domingo (10), focando em propostas econômicas que prometem mudar o rumo do país. No entanto, uma das principais propostas de Milei, a dolarização da economia, acabou ficando de lado durante o evento.

Durante sua campanha, Milei propôs soluções para os problemas econômicos do país, incluindo a dolarização e o fechamento do Banco Central. Essas medidas, conhecidas como plano Cavallo, têm como objetivo conter a inflação e melhorar a situação financeira da Argentina.

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Previsão de Tempos Difíceis para a Argentina

Na inauguração, o presidente mencionou que a Argentina passará por um período árduo, enfatizando que não há solução sem abordar o déficit fiscal. Surpreendentemente, a polêmica proposta de adotar o dólar desapareceu.

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Se a ideia se concretizar, não seria a primeira vez que a Argentina recorre a essa estratégia. Nos anos 90, durante a gestão de Carlos Menem, o então ministro da economia, Domingo Cavallo, elaborou um pacote de ações para equilibrar a complicada situação econômica, e oficialmente dolarizou o país.

No entanto, o Plano Cavallo fracassou. Pouco tempo depois, a Argentina precisou retomar sua própria moeda, que acabou muito desvalorizada.

Veja, a seguir, como o plano funcionou, suas semelhanças e diferenças com a proposta de Milei de dolarizar a economia.

Os Fundamentos do Plano Cavallo

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Antes da década de 1980, a Argentina foi uma das maiores potências do mundo, mas sua situação se deteriorou durante e após a ditadura militar. Foram milhares de mortes, uma guerra perdida para a Inglaterra e uma diminuição das reservas internacionais. A inflação disparou e o desemprego aumentou.

Em 1985, o governo da época criou uma nova moeda, o austral, e determinou o congelamento dos salários, dos preços e do câmbio — o que foi eficaz a curto prazo, mas não a longo prazo, uma vez que os empresários voltaram a aumentar seus preços para gerar mais receita. Isso acabou levando a uma nova escalada da inflação.

Em 1990, a dívida externa do país era de cerca de US$ 62 bilhões e a inflação anual ultrapassava os 2.000% — para comparação, Milei herda em 2023 algo próximo de 140%.

O Plano Cavallo, implementado em 1991, foi um conjunto de medidas para combater a hiperinflação e estabilizar a economia. Foi estabelecida a criação de uma nova moeda, o peso conversível, que teria paridade de um para um com o dólar a partir de 1992. Para comprar um peso, era necessário desembolsar 10 mil austrais, que era o valor da moeda nacional naquela época.

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Para que a paridade fosse alcançada, a Argentina precisou arrecadar uma grande quantidade de dólares. Foi realizada, então, uma série de privatizações para aumentar as reservas internacionais, juntamente com uma abertura da economia para a entrada de produtos estrangeiros.

A iniciativa foi amplamente apoiada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), um dos principais credores da dívida externa da Argentina, e não enfrentou protestos populares no início.

As empresas privatizadas pertenciam a setores estratégicos, como energia e telecomunicações, por exemplo. No auge do Plano Cavallo, entre 1992 e 1998, o país contou com a entrada de mais de US$ 60 bilhões apenas das privatizações, que atingiram cerca de 90% das empresas públicas da época, segundo o FMI.

Além disso, os produtos importados passaram a dominar o mercado argentino, principalmente do setor têxtil, indústria de calçados, eletrônicos e automobilístico.

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Produzidos com maior eficiência e em grande escala em países como Estados Unidos e China, os produtos importados fizeram com que os produtores nacionais não pudessem aumentar seus preços, para não perderem competitividade e espaço no mercado.

‘Apesar de inicialmente ter trazido estabilidade, o plano também gerou dependência do dólar e desequilíbrios estruturais, contribuindo para a crise econômica posterior’, comenta Rodrigo Reis, especialista em relações internacionais do Instituto Global Atittude.

O professor Paulo Feldmann, da FIA Business School e da FEA-USP, comenta que, apesar do ministro da Economia Domingo Cavallo ter uma má fama atribuída ao fracasso da tentativa de dolarização, ‘ele não foi um ministro ruim só por isso, mas sim por uma série de razões’, pois o plano que criou desconsiderou a realidade socioeconômica do país, aumentou o desemprego e fez disparar o índice de pobreza.

Razões para o Fracasso da Ideia

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À medida que a Argentina aumentava sua dependência do dólar, o governo decidiu aderir ao Consenso de Washington, um pacote elaborado pelo Tesouro dos Estados Unidos, FMI e o Banco Mundial, com ‘soluções’ para o controle da inflação e outros problemas econômicos de países emergentes.

Além das privatizações e abertura econômica, as medidas previam redução de impostos para importação e diminuição de investimentos na indústria nacional. A promessa era de que os países passariam a gastar menos com infraestrutura e incentivos, e poderiam destinarem os recursos para áreas essenciais.

O professor Paulo Feldmann destaca que as principais medidas foram adotadas, além da Argentina, por Brasil e outros países da América Latina. E que aqueles que tinham uma indústria mais aquecida, passaram por problemas de competitividade com os produtos importados.

Na Argentina, a situação foi pior no setor automotivo e têxtil, com as fábricas nacionais perdendo muita força e observando o desemprego aumentar. Simultaneamente, as empresas que foram privatizadas passaram a enxugar grande parte do quadro de funcionários.

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A taxa de desemprego do país subiu de 7% em 1992 para 18,3% em outubro de 2001, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Junto com o alto nível de desemprego, a Argentina viu seu indicador de pobreza crescer de 24,1% em 1992 para 34,32% em 2000, e voltou a enfrentar uma crise econômica forte.

A falta de investimento do governo para gerar receita dentro do próprio país, ‘a falta de políticas complementares para combater a recessão — como investir em políticas sociais que auxiliassem os desempregados — e a rigidez na implementação das medidas sem considerar as consequências das privatizações e abertura econômica contribuíram para a falha do Plano Cavallo’, explica Reis.

A crise levou ainda a uma redução no nível de investimento estrangeiro e, consequentemente, menos dólares entrando no país. E o momento de moeda americana valorizada, acentuou a saída de recursos.

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Assim, o peso conversível voltou a ser apenas o peso e perdeu sua paridade fixa com o dólar em 2002, ano dos famosos protestos no país.

É Possível Dolarizar a Argentina Hoje?

Embora os cenários sejam semelhantes, com inflação elevada e pouca confiança dos investidores internacionais, a Argentina que Milei pega não é a mesma da época do Plano Cavallo.

‘A crise atual é multifacetada: desequilíbrios fiscais, inflação persistente e falta de confiança. Além disso, a dolarização demandaria um ajuste estrutural profundo’, comenta Rodrigo Reis.

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Milei já afirmou, em seu discurso de posse, que a economia argentina passará por um duro período de choque.

‘Não há solução que evite atacar o déficit fiscal. Dos 15 pontos de déficit, 5 correspondem ao Tesouro Nacional. A solução implica um ajuste fiscal no setor fiscal público, que recairá sobre o Estado e não sobre o setor privado’, afirmou Milei no domingo (10).

O que se espera desse início de governo, então, é uma forte redução nos gastos públicos para que o país consiga equilibrar suas contas. Até o segundo trimestre deste ano, as dívidas externas somavam US$ 276,2 bilhões, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC).

Milei já adiantou que o choque pode levar a um aumento do desemprego e do índice da pobreza.

O professor Paulo Feldmann, da FIA Business School, comenta que o país não tem outras possibilidades de conseguir dinheiro, como fez na época do Plano Cavallo. Então, como só os Estados Unidos podem emitir dólar, a Argentina depende que o Tesouro americano coloque mais moeda para circular.

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As reservas internacionais do país estão vazias e o próprio Milei disse, em seu discurso, que não há dinheiro. Assim, o primeiro desafio para a dolarização argentina hoje é, justamente, conseguir a quantidade de dólares suficiente para dar conta de toda a dinâmica econômica.

Reis acredita, ainda, que, ‘para uma dolarização saudável, Milei deve considerar políticas que promovam estabilidade e confiança. Primeiramente, é essencial um equilíbrio fiscal, controlando gastos públicos e promovendo responsabilidade fiscal’.

‘Além disso, é fundamental um sistema financeiro robusto e regulamentado, juntamente com medidas para garantir a competitividade e diversificação da economia’, afirma o internacionalista.

São tarefas difíceis, considerando que tornar um país realmente mais atrativo para receber investimentos é um trabalho de longo prazo, enquanto um mandato presidencial dura apenas quatro anos.

Países Dolarizados

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Outros países da América Latina já decidiram dolarizar a economia. O Panamá, por exemplo, tem duas moedas oficiais: o dólar e o balboa, com paridade fixa com a moeda norte-americana. No entanto, o Panamá tem uma relação comercial muito estreita com os Estados Unidos, além de ser um paraíso fiscal, inundado de dólares.

Equador e El Salvador, países com alto endividamento, também são dolarizados. Mas, para Feldmann, eles são exemplos práticos de que a dolarização tende a não trazer benefícios de longo prazo, porque a economia fica dependente das decisões de política monetária dos Estados Unidos.

Em outras palavras: os rumos das economias dolarizadas dependem de decisões do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que pouco se importa com o ciclo econômico de países latinos.

Se os Estados Unidos estiverem em um momento de inflação alta, por exemplo, e o Fed optar por subir os juros, o movimento natural é que o dinheiro de investimentos e da própria população migrem para os títulos públicos americanos, que terão boa rentabilidade.

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Isso desacelera o consumo não apenas no país, mas também em qualquer outro que use o dólar. E vice-versa. Se o Fed decidir cortar os juros para estimular a atividade econômica americana, pouco importa se países dolarizados precisem conter o avanço dos preços internamente.

Feldmann, da FIA Business School, destaca que o país latino fica enfraquecido para decidir sobre sua política econômica, composta pelo fiscal (arrecadação e gastos), monetário (juros e inflação) e cambial (controle da moeda).

‘Se uma dessas ‘subpolíticas’ está na mão dos Estados Unidos, o país fica coxo, porque, se você mexe em uma, afeta também a outra’, afirma.

Sobre a possibilidade de Milei realmente conseguir dolarizar a Argentina e ter um processo bem-sucedido, os dois especialistas consideram que isso não deve acontecer no curto prazo.

Primeiro, porque a maioria do Congresso argentino não é da base do novo governo, o que dificulta a costura para a aprovação de qualquer projeto — principalmente os mais ousados. E também porque, com o tempo, os argentinos podem perceber que os benefícios podem ser limitados.

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‘A dolarização poderia trazer estabilidade inicial, mas a longo prazo limitaria a capacidade do governo de controlar a política monetária e fiscal, além de aumentar a dependência do dólar. A Argentina precisa fortalecer sua própria moeda, investir em políticas econômicas sólidas, atrair investimentos e promover a estabilidade política para superar seus desafios econômicos estruturais, em vez de optar pela dolarização’, ressalta Reis.

Fonte: G1 – Mundo

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