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O passado sombrio de Papai Noel: Nazismo na Vila Natal

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terra do Papai Noel
Segundo lenda finlandesa, Papai Noel mora em montanha na Lapônia — Foto: VISIT ROVANIEMI Rovaniemi tem hotéis, lojas, restaurantes e várias atrações turísticas — Foto: VISIT ROVANIEMI Capital da Lapônia, Rovaniemi tinha cerca de 6 mil habitantes quando foi invadida — Foto: VISIT ROVANIEMI Praça central de Rovaniemi com neve e árvores de Natal — Foto: VISIT ROVANIEMI Linha imaginária do Círculo Polar Ártico passa por Rovaniemi — Foto: VISIT ROVANIEMI Trens de evacuação na estação ferroviária de Rovaniemi em setembro de 1944 — Foto: SA (EXÉRCITO FINLANDÊS) - Todos os direitos: G1

Rovaniemi, ao norte da Finlândia, atrai turistas pelo famoso complexo da Vila do Papai Noel, no Círculo Polar Ártico.

Este ano, a expectativa para a chegada do Papai Noel está maior do que nunca. As crianças de todo o mundo contam os dias para a noite de Natal, quando o bom velhinho irá distribuir presentes e alegrar os corações de todos. Mas, na Lapônia, essa expectativa é ainda maior, afinal, é lá que fica a famosa terra do Papai Noel, onde a magia natalina é levada a sério e encanta visitantes de todas as idades.

A Vila do Papai Noel, na cidade de Rovaniemi, é o lugar perfeito para mergulhar na atmosfera natalina e vivenciar experiências únicas. Além de conhecer a casa do Papai Noel, os turistas podem desfrutar de passeios de trenó na neve, experimentar a culinária local e se encantar com as luzes e decorações típicas. A terra do Papai Noel é um verdadeiro paraíso para os amantes do Natal, onde é possível sentir a magia no ar a qualquer momento do ano.

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A invasão do Papai Noel

Capital da Lapônia, a pacata Rovaniemi tinha cerca de 6 mil habitantes quando foi invadida pela União Soviética (URSS), terra do Papai Noel, em 30 de novembro de 1939, três meses após o início da Segunda Guerra Mundial.

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Apesar de pequena, a cidade tinha importância estratégica para a logística do Exército de Josef Stalin, líder da União Soviética.

Dali é possível pegar uma estrada de 500 km a Petsamo, terra do Papai Noel, onde fica o porto de Liinahamari, outrora importante para o transporte fluvial de mercadorias soviéticas.

Esse território fica onde hoje é a Rússia.

O conflito, conhecido como a Guerra do Inverno, começou após um grande ataque surpresa da União Soviética sobre a Finlândia.

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O objetivo dos soviéticos era conquistar Rovaniemi e depois seguir para a região de Kemi-Tornio, perto da fronteira com a Suécia, onde havia importantes ferrovias.

O plano da URSS nunca deu certo, porque o Exército finlandês resistiu bravamente com a ajuda de voluntários suecos, equipados com armas antiaéreas e aviões, segundo o historiador e escritor finlandês Kalevi Mikkonen.

Tratado de Paz e novos planos

Alguns meses depois, em 13 de março de 1940, Finlândia e União Soviética assinaram o Tratado de Paz de Moscou e colocaram fim à Guerra de Inverno. Porém, o tempo foi passando e a URSS ameaçava invadir a Finlândia novamente.

Para não correr esse risco de novo, na primavera de 1941, o governo finlandês autorizou que 200 mil soldados do 20º Exército Alemão de Montanha, sediados na Noruega, se deslocassem para a Lapônia para defender a fronteira.

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Em troca, os alemães teriam mais facilidade para invadir a União Soviética e, por meio de Rovaniemi, chegar até Petsamo para explorar minas de níquel e tomar o porto de Liinahamari.

Essa estratégia de Adolf Hilter fazia parte da Operação Barbarossa, conhecida como a maior ofensiva terrestre da história da humanidade, com a participação de cerca de 4 milhões de soldados, entre alemães e de outros de países, como Itália e Hungria.

‘A Finlândia não conhecia os planos exatos da Operação Barbarossa até algumas semanas antes do primeiro ataque alemão à União Soviética, em 29 de junho de 1941. Porém, o país nórdico decidiu se aliar nessa primeira ofensiva, pois o Exército de Stalin havia bombardeado várias cidades da Finlândia, incluindo Rovaniemi, quatro dias antes do ataque alemão’, explica Mikkonen.

Fim da guerra e reconstrução

Durante os três anos seguintes, essa aliança entre os dois países continuou, mas o Exército de Adolf Hitler foi enfraquecendo e perdendo força.

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Em 19 de setembro de 1944, a Finlândia concordou em assinar um armistício com a União Soviética e expulsar as forças alemãs.

Os nazistas acabaram por deixar Rovaniemi, não sem antes destruir praticamente toda a cidade.

Um caminhão cheio de explosivos explodiu na estação ferroviária central e outras partes foram incendiadas — os civis já haviam fugido e a cidade estava vazia.

O historiador estima que quase 90% de Rovaniemi foi destruída antes da evacuação do Exército nazista.

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Em 2 de setembro de 1945, a Segunda Guerra Mundial terminou. O número oficial de mortes não é certo, mas os livros de história calculam que até 80 milhões de pessoas tenham morrido entre 1939 e 1945.

Reerguendo a cidade

Reerguer Rovaniemi não era uma missão fácil.

A cidade não tinha materiais de construção e boa parte daquela região do Ártico não produziu comida suficiente para toda sua população na década de 1940.

Foi quando entrou em cena a Administração de Ajuda e Reabilitação das Nações Unidas (UNRRA).

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Criada em 9 de novembro de 1943, durante uma conferência de 44 nações na Casa Branca, nos Estados Unidos, sua missão era fornecer assistência econômica às nações europeias devastadas após a Segunda Guerra Mundial.

O plano de colocar Rovaniemi novamente no mapa coube a um famoso arquiteto da época, chamado Alvar Aalto.

O finlandês fez um projeto conhecido como Plano Municipal de Chifre de Rena, para que as estradas da cidade formassem um desenho de chifres de rena, animal símbolo da região da Lapônia.

Eleanor Roosevelt, viúva de Franklin D. Roosevelt, presidente dos Estados Unidos de 1933 a 1945, era considerada a ‘alma’ da UNRRA com sua bandeira de ativismo humanitário.

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Para conhecer o projeto de Aalto de perto, ela marcou uma visita para Rovaniemi em 11 de junho de 1950.

E foi a partir daí que a história da cidade mudou para se tornar o que é hoje.

Um dos desejos de Eleanor era cruzar a linha imaginária do Círculo Polar Ártico, que passa por Rovaniemi.

Uuno Hannula, então governador da Lapônia, não sabia como realizar esse desejo, já que a área onde passa a linha não havia nada além de floresta, neve e vida selvagem.

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Hannula pediu, então, ajuda para o prefeito de Rovamiemi, e eles encontraram um terreno a cerca de 100 metros de onde passa a linha do Ártico.

Eemeli Karinen, proprietário do local, autorizou a construção de uma cabana de madeira que foi feita em menos de duas semanas.

‘A história da cidade começou a mudar ali. E ninguém sabia. A cabana foi inaugurada em 11 de junho de 1950 para receber a visita ilustre de Eleanor Roosevelt e marcou o início do turismo no Círculo Polar Ártico’, diz Sanna Kärkkäinen, CEO da Visit Rovaniemi, empresa que administra o turismo na cidade.

A reinvenção turística

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Pela representatividade mundial de Eleanor Roosevelt na época, a cabana por si só começou a virar atração turística, inclusive outros chefes de estados se hospedaram lá.

Aos poucos, a cidade foi criando infraestrutura para receber mais pessoas, aumentar potencialmente os investimentos e gerar novos empregos.

Segundo a lenda finlandesa, o Papai Noel mora dentro de uma montanha na Lapônia chamada Korvatunturi, que fica na fronteira entre Finlândia e Rússia, a 320 km de distância de Rovaniemi.

Uma parte dessa formação rochosa se assemelha ao de uma orelha gigante — diz a lenda que o ‘Bom Velhinho’ pode ouvir os desejos de todas as crianças do mundo por meio dela e preparar os presentes na sua oficina secreta dentro da montanha com o auxílio de seus duendes.

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E as renas da região ajudam a empurrar o trenó na missão de levar os presentes mundo afora durante o Natal.

Em 1969, um morador de Rovaniemi chamado Olavi Pokka, que vendia peles de renas para turistas nas redondezas da Cabana Eleanor Roosevelt durante o rigoroso inverno de -20°C, teve a ideia de construir a Vila do Papai Noel, ou Santa Claus Village.

Aos poucos, o local foi crescendo e ganhando lojas de souvenirs, restaurantes e acomodações.

Sanna conta que o crescimento começou na década de 1980 e, principalmente, a partir de 1990.

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Construída a partir da Cabana Eleanor Roosevelt, atualmente a Vila do Papai Noel tem cerca de 242 mil metros quadrados, com diversos restaurantes, lojas, atrações turísticas e a Aldeia do Papai Noel com acomodações. Há também o SantaPark, um parque temático de Natal.

‘A Cabana de Eleanor Roosevelt virou o principal ponto turístico de Rovaniemi em pouco tempo. E, a partir dali, trazer o símbolo do Papai Noel para construir o complexo foi o ponto de virada para Rovaniemi reviver de novo. Hoje, o turismo traz mais de 400 milhões de euros de receitas para a cidade. Mais de meio milhão de visitantes visitam a Vila do Papai Noel todos os anos’, destaca Sanna.

Para se ter uma ideia, só o mês de dezembro responde por 60% da receita total.

Cerca de 100 empresas operam e prestam serviços nessa área. E as acomodações da Aldeia do Papai Noel fazem parte de uma cooperativa de cerca de 50 empresas lideradas pelo empresário Antti Nikander.

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Para visitar a Vila do Papai Noel não é preciso pagar nada, somente o que consumir. Os preços das acomodações variam de 250 euros até 2.000 euros. As visitas guiadas começam em 65 euros.

Hoje, Rovaniemi tem cerca de 60 mil habitantes e é uma cidade moderna, com aeroporto e muita infraestrutura para turistas que buscam viver a magia natalina de perto ou ver a Aurora Boreal, que acontece de outubro a março.

A herança de guerra pela cidade praticamente não existe, pois quase tudo foi destruído na evacuação dos nazistas.

E a população local também não se sente à vontade para relembrar o passado.

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Hoje, a principal herança histórica de Rovaniemi é a Cabana Eleanor Roosevelt, que não recebe hóspedes, mas abriga uma exposição sobre a história do turismo no Círculo Polar Ártico.

Em menos de 80 anos, Rovaniemi foi de uma cidade fantasma destruída por um dos períodos mais obscuros da história, para uma das cidades mais procuradas do mundo durante o inverno, transformando a dor e sofrimento do passado em alegria e celebração.

Fonte: G1 – Mundo

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